Anatomia da crítica

“O mais profundo desejo do ser humano é ser apreciado.” (William James)

“A crítica é inútil e se você se entrega a esse hábito com frequência deve ser prevenido de que isso pode ser fatal para a sua carreira.” (Dale Carnegie)

Há dois sentidos para o verbo criticar. Um, como sinônimo de analisar, avaliar. Outro, como censurar, condenar, falar mal. Em maior ou menor grau, todos já nos pusemos a criticar os outros, em ambos os sentidos. Muitos de nós, em algum momento da vida, já tivemos de amargar as consequências de criticar os outros.

A censura é inútil, magoa e coloca a pessoa na defensiva, pronta para justificar seu ato, não importando quão errada tal pessoa possa estar. Mais: a crítica fere e transforma pessoas boas em seres desejosos de vingança. Aquele que recebe uma crítica desenvolve em seu íntimo um desejo de que seu crítico se dê mal em algum momento. A questão real é: ninguém, em nenhuma circunstância, lida bem com o fato de ser criticado.

O escritor Nelson Rodrigues dizia que a fofoca é o esporte nacional preferido, e todos, em dose maior ou menor, acabam por praticá-lo. Fofoca inofensiva, bem-humorada, não faz mal algum. Falar mal e censurar é outra história. Se você é dado ao hábito de criticar os outros, deve ser prevenido de que a crítica, não raro, se volta contra você, feito um bumerangue. Quando lidamos com pessoas, não estamos lidando com criaturas lógicas. Lidamos com criaturas emotivas, com toda a sorte de crenças, valores, orgulho e sensibilidade.

Ninguém vive num vácuo. Na vida e na carreira, todos dependemos dos outros para alcançar o sucesso, que é, por definição, o reconhecimento dos outros sobre nós. Seja você um empresário, um artista, um atleta, um profissional liberal ou empregado, o sucesso só existe quando o mercado, a sociedade, os clientes, os amigos, a família, os outros enfim, reconhecem seu trabalho, seu comportamento e seus atos. Como integrante dessa gigantesca sociedade humana, sua evolução e sua carreira dependem, em larga medida, da maneira como consegue se relacionar com as pessoas que passam por sua vida diariamente.

Se é assim, se realmente o tempo todo precisamos de nosso semelhante, por que, então, alguém se dedica ao hábito de magoar os outros com críticas e julgamentos ofensivos? Na Bíblia, em Eclesiastes, está escrito: “não se precipite com tua língua”. Esse versículo nos previne e nos alerta para que não usemos nossa língua como instrumento dedicado a colecionar inimigos para nós; inimigos dos quais não precisamos e que podem nos prejudicar em nossa luta diária rumo ao progresso material e espiritual.

Paulo Francis foi um dos mais brilhantes jornalistas brasileiros de todos os tempos. Ele, na verdade, era mais que um jornalista. Era um intelectual e um analista sofisticado, lido e respeitado por todos. Francis gozava de enorme credibilidade nacional. Entretanto, com toda sua capacidade, ele cometeu um grave erro ao, levianamente, assacar uma crítica moral contra os diretores da Petrobrás. Dissera ele que os diretores daquela empresa eram corruptos e tinham roubado dinheiro. Como acusações levianas haviam se tornado algo comum em parte da imprensa brasileira, Francis embarcou na moda e pagou caro por isso. O que ele não contava era com a reação dos diretores da estatal. Feridos em sua honra, eles moveram um processo criminal contra o jornalista. Só que moveram o processo em Nova York, onde Paulo Francis tinha residência. Como nos EUA a liberdade de imprensa tem de contrapartida a responsabilidade pelo que se diz, o processo feriu de morte o jornalista. Não tendo provas do que afirmara publicamente, Francis se viu na iminência de ser condenado.

Conversando com um jornalista amigo de Paulo Francis, ouvi dele que o processo abalara profundamente a vida de Francis e ajudara a apressar sua morte. A lição a se extrair desse episódio é o alto preço que alguém pode pagar por criticar os outros. E a consequência pode ser muito pior quando, como no episódio Paulo Francis, a acusação atinge a honra das pessoas e é uma acusação sem provas. Na prática, não é preciso alguém chegar a esse ponto para colher os frutos amargos do hábito de criticar. O ser humano tem uma visão de si mesmo muito mais generosa do que aquela que o mundo tem dele, e está sempre pronto a justificar seus pensamentos e os seus atos. Por isso, ninguém recebe bem qualquer tipo de crítica.

É falsa a crença no lado bom da tal “crítica construtiva”. No mínimo, isso é uma meia verdade, pois quem invoca a ideia da crítica construtiva é quem a faz, nunca quem a recebe. É claro que podemos analisar os atos dos outros e dar sugestões. Mas há grande distância entre fazer isso e lançar uma crítica. Na verdade, a crítica tem uma característica própria, uma conotação própria, uma entonação peculiar, um jeito inconfundível, enfim, sutilezas que a transformam em ofensa, julgamento, censura, condenação e deixa um rastro de mágoa e tristeza em quem a recebe, além de criar cicatrizes que não se apagam.

Há um provérbio popular que diz: “quem bate esquece; quem apanha, nunca”. Em 1978, Ernesto Geisel, o presidente que saía, e João Figueiredo, o presidente que entrava, indicaram Laudo Natel para governador de São Paulo. Os militares indicavam e o parlamento estadual deveria ratificar por meio do voto dos deputados. Paulo Maluf, até então um político alinhado com os militares, resolveu criticar a indicação, cooptou os deputados estaduais e lançou seu nome ao governo do Estado. Para surpresa dos militares, Maluf bateu o candidato do regime. Foi o único caso na história da ditadura.

Maluf ganhou, mas magoou profundamente aos presidentes Geisel e Figueiredo. Como governador, ele passou quatro anos servindo e agradando ao presidente Figueiredo, a ponto de este dizer que Maluf foi o governador que menos lhe causou problemas. Isso foi suficiente para Figueiredo esquecer o episódio anterior? De forma alguma! Quando Figueiredo anunciou que o próximo presidente seria eleito em 1984 no colégio eleitoral, formado basicamente por deputados e senadores, e sinalizou que poderia ser um civil, Maluf rapidamente se apresentou, exibindo suas credenciais de governador do maior Estado do país e fiel servidor do regime. Figueiredo concordou? De jeito nenhum! Rapidamente, trabalharam outro candidato, o Ministro dos Transportes, coronel Mário Andreazza, apresentado como o candidato do partido oficial, o PDS.

O candidato oficial deveria ser homologado pela convenção do PDS e disputar no colégio eleitoral contra algum candidato da oposição. Novamente, Maluf se articulou, lançou seu nome na convenção do PDS, e derrotou o candidato do governo. O presidente Figueiredo, que já não tinha esquecido o episódio ocorrido em São Paulo, sofreu mais uma flechada de Maluf. O que se viu depois é uma história conhecida. Figueiredo se encheu de raiva, recusou o apoio a Maluf no colégio eleitoral, anunciou que passaria a faixa presidencial para qualquer um, menos para Maluf, e liberou os parlamentares alinhados com o regime militar para que votassem em quem quisessem.

Foi aí que José Sarney, homem da ditadura, debandou-se para o PMDB e virou vice de Tancredo Neves. Quando perguntaram a Figueiredo porque negar apoio a Maluf já que ele fora tão prestativo ao regime, o presidente respondeu: nunca esqueci a desfeita que ele me fez. Aí está a natureza humana em ação. Alguém poderia argumentar que se trata apenas de um caso. Pois é! Mas, casos iguais a esse aparecem aos montes na história dos relacionamentos humanos. Mas e Tancredo Neves? Como Tancredo aparece nessa história, torna-se o candidato das oposições, elege-se com os votos dos homens do governo e vira presidente?

Tancredo, eis aí um político astuto. Ele era dado a fazer críticas? Sem dúvida, e como era! Ele era um crítico mordaz e constante… do FMI, da fome, da pobreza, da distribuição de renda, da violência. Tancredo jamais criticava pessoas e nunca era flagrado espinafrando pessoas, criticando quem quer que seja. Na vida pública, ele foi tudo, fez de tudo, ocupou cargos, foi o primeiro civil eleito presidente depois dos militares, ungido pelo voto das oposições e dos homens do governo, sem jamais ter assacado crítica mordaz a um ser humano. Tancredo sabia como ninguém onde estava a linha divisória entre a opinião que ajuda e a crítica que magoa. E ele nunca a ultrapassava.

Ainda moço, Tancredo Neves fora Ministro da Justiça do governo de Getúlio Vargas. Antes de cometer suicídio, Vargas escolheu Tancredo para ser o seu porta-voz e o presenteou com a famosa caneta de ouro que usava. A tal caneta está hoje com Aécio Neves, neto de Tancredo. Já no governo Vargas, o jovem Tancredo se esmerava no papel de homem moderado, conciliador, que nunca ofendia nem criticava ninguém, estilo que foi fundamental para o sucesso político dele.

Em 1961, Jânio Quadros renunciava à presidência e João Goulart assumia o governo, em meio a grandes problemas e enorme rejeição no meio militar. Por um curto período de tempo foi implantado o regime parlamentarista no Brasil. Quem foi o nome encontrado para assumir a função de primeiro-ministro? Tancredo Neves, é claro. Com sua calma, e a voz que nunca subia um tom, lá estava o mineiro Tancredo, tentando dar viabilidade a um governo confuso. Depois, um plebiscito acabou com o parlamentarismo, Goulart readquiriu poderes, armou confusão, e os militares assumiram em março de 1964.

Em 1984, quando Figueiredo anunciou que os militares iriam respeitar o resultado da disputa no colégio eleitoral, mesmo sendo Maluf o candidato do partido oficial, quem poderia ser o candidato único das oposições e dos dissidentes do governo? O governador de Minas Gerais, Tancredo Neves. Novamente, lá vai ele. Renuncia ao governo de seu Estado e sai pelo país à cata de apoios e votos dos deputados federais e senadores. Maluf, que vinha ganhando tudo o que disputava, só podia ser enfrentado por um homem sem rejeição no meio político. E esse papel só poderia ser desempenhado por quem não tivesse o hábito de lançar sua língua contra os outros.

Um belo dia, Maluf andou soltando farpas contra Tancredo. Instado a comentar as declarações de Maluf, ele resolveu dar o troco. Microfones em torno do rosto, ele declara: “Maluf está prestando um serviço ao país. Nossa disputa vai legitimar o processo eleitoral e legitimar minha vitória. Objetivamente, ele nada tem contra mim e, no fundo, ele sabe que suas críticas não são verdadeiras. Ele está apenas exercitando uma tática do jogo eleitoral e a dureza de suas palavras é um pouco a angústia de quem sabe que vai perder”.

Isso era o mais duro que Tancredo conseguia ser. E todo seu sucesso foi o coroamento de seu estilo. Ele venceu e, no dia da eleição, fez um agradecimento ao adversário Maluf. Para Tancredo, o presidente Figueiredo disse que passava a faixa, mas não para Maluf. Tancredo morreu na véspera de sua posse e assumiu o vice, José Sarney, a quem Figueiredo também se recusava a passar a faixa presidencial.

O ser humano tem o dom de estocar mágoas e manter feridas abertas. Por isso, a crítica se volta contra quem a faz. Jesus Cristo gastou o tempo tentando fazer a humanidade praticar a mais difícil das virtudes: o perdão. “Odiai o pecado e amai o pecador”, dizia ele. Mas é fácil fazer isso? Responda você. Nossa dificuldade em lidar com as críticas vem de nossa necessidade de reconhecimento. A crítica é a antítese do reconhecimento.

Uma opinião dada com leveza, com respeito, sem agressividade nem ofensa, pode produzir bons resultados. Mas a crítica ácida, aquela que diminui o criticado, essa, definitivamente, nunca é bem assimilada. Colocado na defensiva, o ser humano sempre tem uma boa justificativa para suas ideias e seus atos. Quando o famoso gangster Al Capone foi preso, pensam que ele disse: “fui pego pelos meus crimes”? Nunca! “É isso o que eu ganho por proporcionar diversão às pessoas”, foram suas palavras.

Todos deveriam desenvolver o hábito de aprender a se colocar no lugar do outro e perguntar porque ele faz tal coisa ou age de determinada maneira. “O homem é o homem e suas circunstâncias”, dizia Aristóteles. É fácil ficar criticando e julgando os outros sem sequer imaginar porque razão agem daquela forma. Abraham Lincoln é tido como um dos maiores governantes de homens que o mundo conheceu. Sempre que estava em luta aberta com alguém, Lincoln se perguntava: “por quais motivos ele age dessa forma?”. Dizem que, como presidente dos EUA, Lincoln insistia com seus auxiliares para que se fizessem essa pergunta.

Se você se colocar no lugar do outro e conseguir entender as razões de seu ato, você será melhor na arte de solucionar problemas. Sempre que alguém do governo espinafrava os outros, Lincoln repetia uma de suas frases preferidas. “Não os critique, eles são o que seríamos nas mesmas circunstâncias”. Novamente vale lembrar que não podemos confundir a crítica, nos termos aqui tratados, com o direito de analisar e dar sugestões. É um engano pensar que não se pode passar pela vida sem criticar. Lincoln não criticava. No entanto, até hoje ele é considerado um dos maiores presidentes da história dos EUA. Se alguém tem dificuldade em precisar a diferença entre uma coisa e outra, vale recorrer aos exemplos.

O Presidente da República manda para o parlamento um projeto de lei alterando a fórmula de cálculo das aposentadorias. Num programa de televisão, dois políticos são convidados a falar do tema. O jornalista pergunta o que acham da proposta do governo. Ambos são contra o projeto, mas as respostas são essencialmente diferentes. O primeiro diz o seguinte: “o presidente é um irresponsável e um mentiroso; ele está enganando o povo e merece meu repúdio”. O segundo diz: “as aposentadorias estão provocando um déficit no sistema e o governo está trabalhando por uma solução. Mas, essa proposta não funciona porque tem algumas inconsistências técnicas”.

O segundo entrevistado, ao fazer análise das tais inconsistências técnicas, esclareceu muito mais a população e não agrediu a ninguém. O primeiro, ao xingar e ofender, atraiu para si a ira do presidente e arrumou um desafeto pelo resto da vida. Caso um dia ele precise que o presidente mova uma palha para ajudá-lo, ele vai perecer. Se precisar do presidente para um acordo político, ele não terá colaboração. A ofensa é um veneno que se volta contra a pessoa que ofende, até mesmo quando ela pode estar cheia de razão.

No domingo, 24 de maio de 2001, uma reportagem no programa “Fantástico”, da TV Globo, mostrou o quanto a pessoa pode penar por criticar. Tentando entender a convulsão do jogador Ronaldinho na final da Copa do Mundo na França, a reportagem mostrava uma mulher que havia tomado injeções do medicamento chamado “voltaren” e apresentava necrosamento do tecido no local da injeção. A bula do remédio alertava para a possibilidade de necrosamento e convulsões. Como Ronaldinho tomara esse anti-inflamatório, estabeleceu-se aí uma correlação.

Mas a história da mulher é a seguinte: por causa da necrose, ela movera uma ação de indenização contra o fabricante do medicamento. A mulher reclamava da justiça, alegando que, além de não ter a sentença da ação de indenização, ela ainda fora condenada a cumprir dois anos de prisão, numa ação de difamação que o fabricante do remédio movera contra ela por ela ter criticado o laboratório num programa de rádio. Ela já havia cumprido os dois anos em prisão domiciliar. Por mais injusta que possa ser a condenação, qual a lição a se tirar do episódio?

Movida pela raiva e pela dor, a mulher soltou sua língua contra o laboratório, em modos que ensejou uma ação de difamação. Ainda que pudesse estar certa, a verdade é que ela pagou um preço altíssimo, doloroso, apenas por criticar e ofender. Ela nada ganhou com aquilo. Pelo contrário, perdeu muito, perdeu demais. Se ela apenas centrasse suas energias na ação em que pedia indenização e se abstivesse de difamar, ela jamais teria amargado a tragédia de se ver condenada. A reportagem insinuava que era estranha essa situação. Mas isso não muda o fato de que houve ação contra ela em razão dos atos dela. O fato é que, até mesmo estando certo, você pode colher frutos amargos do hábito de criticar.

Um aspecto da personalidade do ser humano é que nós somos movidos por crenças e convicções. E não nos iludamos. Nós não mudamos com facilidade. Quando criticamos os outros, na prática estamos condenando seus atos e dizendo que não concordamos com eles. Isso não seria um problema se, para tudo, houvesse uma verdade absoluta. Mas não há. Um pensador dizia que em quase tudo há sempre três pontos de vista: o meu, o teu e o correto. Além disso, em muitas faces da vida o ser humano desenvolve dogmas, ou seja, a crença exagerada. Um exemplo é o fanatismo religioso. Por isso, é tão difícil discutir religião; em matéria de crença, cada um tem justificativas para a sua. O fanatismo é a overdose de crença. Assim são os dogmas, e o melhor que temos a fazer é incorporar o princípio da tolerância, pelo qual cada um vive como quer e acredita no que quiser, com a condição de que respeite seu semelhante e com ele conviva apesar das diferenças.

Mesmo em questões técnicas e comportamentais, mais afetas à realidade da vida diária, as pessoas desenvolvem uma forma de crença: a convicção. Nossos atos e atitudes são ditados por nossas convicções. Se somarmos a isso o traço de personalidade de cada um, aí está o quadro que explica porque cada ser humano age como age. Assim, se você deseja tornar este mundo um tanto melhor, comece por mudar a pessoa que você mais ama: você mesmo. Analise seus pontos fortes e seus pontos fracos, e faça um plano de melhorias. Proponha-se a ser, cada vez mais, um ser humano melhor. É útil para nosso crescimento que nos façamos algumas perguntas. Sou correto? Sou verdadeiro e confiável? Sou cooperativo? Sou competente? Sou educado? Respeito às pessoas? Sei ouvir?

Considerando tudo Isso, devemos nos abster de orientar os filhos, opinar sobre assuntos ou dar sugestões às pessoas? De forma alguma! Só que há muitos caminhos para se chegar ao mesmo resultado. O pior deles é a crítica mordaz, a opinião ácida, a observação ferina, a ofensa gratuita. Entendendo as coisas por esse prisma, fica mais fácil agir. A humanidade não veio ao mundo para ser perfeita. “O bom Deus, que limitou a inteligência dos homens, infelizmente não limitou a estupidez”, já dizia o chanceler Adenauer, da Alemanha.

No final da década de 1930, o publicitário Alex Osborn inventou a técnica do brainstorming. Ele observou que, nas reuniões, as novas ideias eram desencorajadas ou destruídas de forma sistemática, especialmente se fossem ideias fracas ou apresentadas por alguém de escalão inferior. Pensando nisso, ele inventou um processo pelo qual, numa sessão, as pessoas deveriam debater, seguindo rigorosamente três regras: a) liberdade de opinar; b) é proibido criticar; c) não existe hierarquia. O que ele fez foi decretar a suspensão do julgamento e da hierarquia. Por mais absurda que uma ideia pudesse parecer, ela deveria ser considerada. Apenas depois, em outra sessão, cada ideia seria examinada à luz de seus pontos fortes e pontos fracos. Osborn dizia que isso era necessário porque o ser humano tem a mania de criticar toda ideia que não venha dele próprio. Aplicada às organizações, essa constatação leva sempre à prevalência das ideias de quem está em escalão superior, por mais erradas que sejam.

Muitas histórias podem ser contadas, mostrando todo o mal que recai sobre quem se dedica ao hábito de criticar e ofender aos outros. Deixo aqui a última. No início da carreira profissional, o jovem disparou um amontoado de críticas ao chefe geral da organização para a qual trabalhava. Fez isso na presença de vários colegas de trabalho. Imaginando que todos fossem amigos, ele não contava com a hipótese de que um deles pudesse contar ao chefe, que por acaso era o dono, tudo o que dissera naquela malfadada e jamais esquecida tarde.

Chamado à presença do chefe, o jovem crítico foi duramente repreendido, humilhado e espicaçado com todo o tipo de impropério. Além da vergonha e da pecha de ingrato, ficou um terrível mal-estar e o relacionamento nunca mais foi o mesmo. Feridas ficaram abertas. O empresário meditou sobre as críticas? Jamais! Ele sentiu-se traído, ficou magoado e, mais tarde, o rapaz acabou deixando o emprego.

Posso avaliar o quanto uma situação dessas pode ser prejudicial, pois o inexperiente jovem era eu, que, por ironia, era tido como uma pessoa moderada e calma. Paguei um preço alto e a lição foi amarga. Dali em diante, prometi a mim mesmo que iria contar até dez toda vez que tivesse um impulso de criticar alguém. Quanto a minhas ideias, opiniões e sugestões, resolvi que procuraria dá-las sempre de uma forma a não machucar as pessoas. Sempre que sou tentado a escorregar nesse propósito, cutuco a memória e digo: Pare! Você não precisa disso.

Aprendi que nem mesmo os filhos lidam bem com a crítica formulada pelos pais e que, também com eles, em vez de construir, a crítica diminui, fere e magoa. Lembro-me das palavras de Antony Hobbins. “Todos nós temos sonhos. Todos queremos acreditar, do fundo das nossas almas, que temos o dom de tocar as pessoas de um modo especial e que podemos fazer alguma diferença no mundo”. A crítica que fere é a contramão disso.

Hoje, observando a vida e analisando as pessoas, acredito sinceramente que o melhor que temos a fazer é burilar nossa personalidade, ampliar nossos conhecimentos e aprender que, nessa aventura que é viver, é muito melhor estender a mão do que soltar a língua.

José Pio Martins
Economista, atualmente Reitor da Universidade Positivo, comentarista econômico da Rádio CBN Curitiba, editorialista da Gazeta do Povo e é autor dos livros Educação Financeira ao Alcance de Todos (2004) e Seu Futuro (2011), ambos da Editora Fundamento.

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